A Epopéia Centenária – Por Victor Raphael

Amigos do Blog EU, RADAMÉS Y PELÉ, é o seguinte. Neste domingo que passou, aconteceu no Engenhão, o jogo que comemorou o Centenário do Fla-Flu. A peleja, vencida pelo Tricolor Carioca por 1×0 ficou em segundo plano perto da história deste clássico.

Tamanha importância, que resolvi fazer algo diferente. Hoje, quem vai escrever para vocês não sou eu. É mais uma vez, meu amigo Victor Raphael, torcedor do Fluminense, que esteve presente neste espaço nas primeiras semanas do mesmo.

Também estou procurando um blogueiro torcedor do Flamengo com uma certa proximidade com minha pessoa para postar aqui, mas ainda não encontrei. Assim que achar, vai rolar também.

Amanhã a gente se vê. Grande abraço !

Luís Butti
Twitter: @luisbutti

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A Epopéia Centenária
(por Victor Raphael)

 

Domingo, dia de praia, samba e futebol. Ledo engano, quando e dia de Fla-Flu.

São Pedro e São Sebastião deste Rio de Janeiro, que é o caos em forma de beleza, trata de retirar o sol do cenário carioca. É um ultraje ele brilhar no dia em que se chocam os Irmão Karamazov do Futebol Mundial.

40 minutos antes do nada surgiu o fla-flu. E dele derivaram todas as coisas que se entendem por futebol no Brasil. Não há nada que se compare ao combate entre as duas, que se pode duvidar se são ou não as maiores instituições emocionais do futebol nacional, juntas são invariavelmente imbatíveis. Raios e trovões fazem a moldura do Fla-Flu do Centenário.

Não sejam incautos, caros leitores, a rodada do Campeonato Brasileiro simplesmente não existiu pra esses dois times. Trata-se de um campeonato dentro do outro, como há muito não se via. A atmosfera da capital carioca não é a mesma nos outros dias. Quando a instituição fla-flu entra em campo, depois de 100 anos, para escrever mais um capitulo de sua historia emocionante, controversa, perversa, emotiva, fulgurante e passional em quase 400 jogos, esquece-se da normalidade. Tudo é maravilhosamente anormal.

Os times entram em campo, mas a guerra é travada muito antes: atrelados em camarotes duas entidades do submundo esportivos flafluriano estão à postos, descarregando energias a torto e a direito. De um lado o Sobrenatural de Almeida, algoz rodrigueano do Tricolor das Laranjeiras; do outro, o Gravatinha, personagem indefectivelmente torcedor do Fluminense, que por “n” vezes deu sua colaboração em vitorias mirabolantes contra o rubro-negro.

Os dois se entendem apenas em um tema. Os dois times jogam fora de casa. Flamengo e Fluminense mereciam comemorar suas epopeias centenárias no Maracanã, que leva o nome de Mário Filho, irmão de Nelson, criador dos personagem e mais do que isso, o criador do termo que hoje significa mais do que um clássico, uma odisseia.

E o mundo enfim parou. Em meio a algazarra de duas nações, o silencio pairava na mente de 22 jogadores para uma partida que antes de começar já entrava pra história. O Maior dos Maiores era despertado novamente no imaginário do Rio de Janeiro, do Brasil e do Universo Material ou não. Do além, outros dois irmãos, um mais comedido, e o outro mais verborrágico assistiam aflitos entre as espessas nuvens que pairavam sobre o Engenhão. Nem se olhavam.

Apita o árbitro. Nota-se nas camisas rubro-negras os nomes dos 11 titulares do primeiro Fla-Flu. 9 deles fizeram parte do hegemônico scratch que tornou o Fluminense uma potencia carioca nos anos anteriores. Gravatinha sentencia logo no começo do jogo: “Era o que eu queria”. Sobrenatural retruca: “Mas ora essa, se jogarem como jogavam aqueles que envergaram essa camisa pela primeira vez, será um passeio”. Gravatinha ajeita a cartola, e sem olhar para o Sobrenatural de Almeida, apenas murmura: “tem coisas que nunca irão mudar”

Já na arquibancada celeste, Mario observa Nelson puxar uma velha maquina de escrever e começar a teclar incessantemente, e pergunta: “Mal começou o jogo, o que pode você escrever?”. Nelson, objetivamente responde: “Posso escrever o gol”. E aos dez minutos, a historia foi escrita, tal e qual um romance de Nelson: Thiago Neves, que saiu do Fluminense, foi ao Flamengo e se redimiu voltando ao berço cobra falta… a defesa flamenguista tira mal a ponto de a bola voltar a Thiago Neves como se fosse uma segunda chance, como a que recebeu do próprio Fluminense para retornar ao seu lar. E ele bate cruzado na bola. Sem pernas que desviassem, sem mão que defendessem, ela tem o endereço certo: Fred, aquele que nunca havia balançado as redes do principal rival tricolor… desvia a bola, e passa para a eternidade.´

Nelson Rodrigues e Mário Filho. Na batalha dos imortais, venceu o primeiro.

Nelson Rodrigues e Mário Filho. Na batalha dos imortais, venceu o primeiro.

Nelson ainda chega a reclamar: “No que eu escrevi era pra o goleiro espalmar e a bola entrar mansamente nas redes!”. Mário, como sempre, estático, acompanhando o jogo como um lorde britânico. Nos camarotes mais embaixo… Gravatinha afrouxa a  gravata, desabotoa o paletó e se dirije ao Sobrenatural: “Pronto, tá feito meu serviço… faça bom proveito”. Com apenas dez minutos de jogo, Sobrenatural de Almeida se assustou com a atitude do seu velho conhecido, mas aproveitou a deixa pra desancar uma série de ataques raivosos do Flamengo em direção à defesa tricolor, todos bloqueados no primeiro tempo por Gum e Anderson, gigantes prontos a rebater toda e qualquer ameaça.

No intervalo, Mario balbucia algumas palavras que dão a tônica do que seria o segundo tempo. Ele se vira pra Nelson e diz: “Flamengo sem garotos da Gávea é um time qualquer”. Nelson intervém: “Ainda que correta sua constatação, não se mudam 100 anos em 45 minutos. O Fluminense sairá vencedor, apesar de tudo que está por vir. Esse time que não pude ter a oportunidade de trata-los como guerreiros em minha escrita irão afinal, mostrar de onde vem essa nomenclatura.

Embaixo, Sobrenatural entra na mente do técnico e provoca a entrada de mais um dois seus: Adryan, garoto da gávea, como bem queria Mário. A esperança toma conta do camarote e Gravatinha nem se mexe, apenas estalando os dedos. Sobrenatural pergunta irritadíssimo: “Porque diabos estala esses dedos irritantemente?”. O Gravata diz, com a mesma voz ruidosa “esquentando eles, você verá pra que”.

O jogo corre e a superioridade de posse de bola e de área do campo se expande no Flamengo. Os meninos da Gávea botam fogo num fla flu em cenário de guerra – campo neutro, lama, fibra, garra, nervosismo e todos os ingredientes na medida para uma partida épica. Mais próximo do final do jogo os nervos já a flor da pele e dois lances mostram o porque do “esquentar de dedos” de Gravatinha : desviaram a bola em lances do menino Adryan.

Acima, Mario se pergunta mentalmente porque o seu irmão tinha criado aqueles personagens, mal sabendo que eles estavam ali embaixo. Nelson por sua vez, parecia ter uma visão do jogo dentro da cabeça, haja vista que não direcionava mais o olhar para o Engenhão. Como em uma de suas frases mais famosas, ele só via o Fluminense

Não dava pra respirar, dentro das quatro linhas sufocantes, o entediante time do Flamengo, com a adição dos meninos da Gávea foi brigador até o fim, mas prevaleceu o inusitado, o impensável, o pitoresco como num belo Fla-Flu: o time que menos teve posse de bola, o time que menos chutou foi o time que mais fez gols. As camisas que um dia deram nome aos primeiros rubro-negros retornaram pra receber outro golpe. Não foram páreas para a mística, centenária, e porque não dizer, paterna casaca das três cores que traduzem tradição. Cem anos se passaram e a sina se repete. O Fluminense bate o time de futebol que dele surgiu. A criatura não suplantou o Criador. E assim caminha-se a guerra dos irmãos que são pai e filho em seu eterno e complexo carma da coexistência… pelos próximos 40 minutos depois de todo o fim.

 

Victor Raphael
Twitter: @VictorRapha

Victor Raphael é professor, pedagogo e torcedor do Fluminense. Esporádicamente, participa deste espaço, a convite do amigo Luís Butti.

 

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