1982, Brasil 2×3 Itália – E foi assim que eles ganharam o jogo….

Estádio Sarriá, Barcelona, Espanha, 1982.

O cenário, a competição, os times e o placar você já conhece e provavelmente não gosta nem um pouco do desfecho da história. Porém, existem muito mais detalhes e motivos do que os três gols de Paolo Rossi na seleção canarinho e a falha grotesca de Toninho Cerezo no segundo gol italiano.

O Brasil, desde a primeira fase, jogava um futebol alegre, bonito e outros adjetivos já bastante utilizados.  Uma espécie de 4-2-3-1, que, além de Waldir Perez no gol, contava com Sócrates fazendo a função de um falso ponta-direita, abria o espaço para Falcão e Cerezo chegarem de trás, mantendo Zico centralizado e Leandro, e, esporádicamente, Júnior, podendo subir para o ataque.

Também eram frequentes os avanços de Luizinho, enquanto Oscar permanecia na zaga. Na frente, permaneciam Éder e Serginho Chulapa e assim jogava taticamente o Brasil de Telê Santana que encantou o mundo. Baseado na movimentação de seus atletas, principalmente seus meio-campistas, o que transformava Doutor Sócrates num “terceiro atacante”.

O esquema tático de Telê Santana na Copa de 1982. Créditos: Blog Olho Tático

O esquema tático de Telê Santana na Copa de 1982. Créditos: Blog Olho Tático

Talvez Telê Santana, cativado pela relativamente fácil vitória diante dos argentinos, nem fizesse idéia do que Enzo Bearzot preparava para a segunda partida da chave (na época, as quartas de final de Copa do Mundo eram chaves de três equipes e só uma passava) contra a Seleção Brasileira. Esquema que já daria certo contra a Argentina na primeira partida italiana da chave.

Brasil e Itália decidiriam qual dos dois iria para as Semi-Finais. A Argentina já estava eliminada. Um empate classificava o Brasil. O Brasil foi para a partida na formação e escalação anterior, que lhe proporcionava um futebol vistoso e com amplo favoritismo. Já a Itália de Bearzot transformou o básico, que por pouco não a eliminaria na primeira fase, em eficiência.

Um 4-4-2 tradicional, dos grandes clubes italianos dos anos 70. Se chamava “Giocco All’italiana”. Com o espetacular Dino Zoff no gol, Gentile, Scirea, Collovati e Cabrini fazendo o sistema defensivo, Oriali, Tardelli, Antognioni e Conti no meio de campo, e Graziani e Paolo Rossi na frente. Até o momento, nada de excepcional ou suficiente para eliminar o grande Brasil de Telê.

Porém, o 4-4-2 de Bearzot havia três variações fatais. A primeira foi colocar um zagueiro fazendo o papel de um líbero extremamente habilidoso, excelente com a bola nos pés, que não se desesperava e botava a bola na intermediária do adversário com facilidade .

Coube tal função a Scirea, que era coberto por Colovatti, que não subia para o ataque. (não confundir com os atuais líberos, principalmente no Brasil, com a função principal de sobra. Scirea era livre para avançar ou voltar o quanto fosse necessário e adequado. Algo similar ao estilo holandês dos anos 70: movimentação).

Por sua vez, Gentile ficava quase estático na defesa pela lateral-direita e Cabrini subia pela esquerda, nas costas de Leandro e Cerezo, enquanto Conti, que era meia, fazia uma espécie de função parecida com a dos grandes wingers britânicos. Voava pelas pontas do campo, fazendo tanto a lateral como a ponta-direita, contra-balanceando com o lado esquerdo, que também subia.

O lateral-esquerdo subia e o atacante pela esquerda ficava. E, do outro lado, o lateral-direito ficava, enquanto o atacante pela direita se movia feito louco. Esta era exatamente a segunda e a terceira variação de Enzo Bearzot: um lateral-base (Cabrini) e um meio-campista centralizado (Conti). E sem a bola, com exceção de Scirea, que ficava livre, os nove jogadores de linha marcavam. Marcavam. E marcavam.

O esquema de Enzo Bearzot: um líbero, um lateral-base e um meia-centralizado. Créditos: Clic RBS

O esquema de Enzo Bearzot: um líbero, um lateral-base e um meia-centralizado. Créditos: Clic RBS

E neste estilo de marcação pesada estilão europeu mesmo, Gentile grudou em Zico. E ali acabava todo o esquema de Telê Santana, baseado na movimentação.

Com Zico anulado e perdendo bastante a sua força, exatamente o estilo rápido, de troca constante de bolas e de posições, Telê era forçado a, excepcionalmente naquela partida, pender a movimentação central para Sócrates e Falcão.

A propósito, exatamente por onde sairam os dois gols brasileiros. Falcão, livre para a movimentação, dava apoio as “falsas subidas” do Doutor (veja ilustração acima), enquanto Cerezo o cobria, subindo para o lado esquerdo do campo. Por sua vez, bem marcado, Zico não conseguiu anotar o seu próprio gol, mas fez jogada genial com Sócrates no gol do empate brasileiro e tentou puxar a marcação na jogada individual de Falcão no segundo empate brazuca.

Não era o suficiente. Taticamente, Bearzot era mais feliz que Telê naquela tarde. As descidas mortais de Conti e o oportunismo de Paolo Rossi durante toda a partida acharam três gols para a Itália, que venceu por 3×2. Sim, acharam. Três gols de extremo oportunismo e transformando bolas perdidas em gols, que em outro comportamento tático, provavelmente não sairiam.

Veja no vídeo abaixo, principalmente a jogada do primeiro gol italiano. Note como o balanceamento dos dois lados feito por Bearzot funciona perfeitamente numa troca de bolas perfeita.

Vale ressaltar que o mesmo esquema funcionara contra a Argentina, com Gentile anulando nada mais, nada menos que Diego Maradona na primeira partida. E, funcionando contra Maradona, contra Zico, contra os poloneses e os alemães na Semi-Final e na Final, foi assim que a Itália de Enzo Bearzot era Campeã da Copa do Mundo pela terceira vez, das quatro conquistadas em sua história (as primeiras seriam em 1934 e 1938, e a quarta em 2006). Sem muita qualidade técnica, mas uma aplicação tática impecável.

E, no então triste Sarriá, estava no Placar ao final do jogo. Bearzot 3, Telê 2.

Até mais !

Luís Butti
Twitter: @luisbutti

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