O jogo que eles queriam ver.

Yokohama, Dezembro de 2012.  Chega a solo japonês a delegação Xeneize do Boca Juniors, pela sétima vez, Campeão da Libertadores da América 2012. Acompanhados, obviamente por membros da La 12, que, com suas barras, bumbos e camisas se aventuraram pela Ásia, fazendo certa balbúrdia e levando animação com seus cânticos porteños.

Não muito longe dali, não menos comportados, com gritos de exaltação a Rainha, chegam os hooligans blues do Chelsea, empolgados pelo título inédito da UEFA Champions League, acompanhando o elenco londrino no aeroporto Narita. Ali mesmo, em Narita, era aonde o clube inglês desembarca com muita festa e, pela ausência de um aeroporto no local da partida, partem num trem expresso para a mesma cidade onde se encontram os boquenses. A tensão vai começar.

Antes da tensão, na semi-final, o Chelsea temia por uma nova pipocada, que não aconteceria: os londrinos despachavam os africanos do Esperance Tunis, da Tunísia por 3×1, com dois gols de Didier Drogba e uma testada mortal de cabeça do meio-campista português Raul Meirelles quase na marca do pênalti após um escanteio. E os Blues estavam na decisão. Não havia mais volta.

Já o Boca, tinha trabalho para se livrar dos mexicanos do Monterrey:  após um duro 0x0, que resultaria numa vitória argentina por 5×4 nos pênaltis. O goleiro Orión, mais uma vez se consagrava, defendendo o último pênalti mexicano, cobrado no canto inferior esquerdo. Orión espalmava e levaria o clube argentino a mais uma decisão internacional. Assim como havia feito Oscar Córdoba nos anos 2000.

E o que o Futebol temia e a história desejava, iria mesmo acontecer: ingleses e argentinos se enfrentando na Final do Mundial da FIFA, justo nos 30 anos das Guerras das Malvinas/Falkland. A guerra, que abalou o noticiário internacional em 1982 em plena Copa do Mundo da Espanha, ganhava sobrevida numa época em que assuntos internacionais viravam matéria principal mais uma vez nos dois países.

Para os argentinos, era a chance real de dar o troco. As vitórias de 1986 e 1998 da Seleção Argentina não eram suficientes, afinal, em contra-partida, a Inglaterra proporcionava o maior mico da história porteña ao eliminar a Argentina (de novo, já havia feito em 1966) ainda na fase de grupos em 2002 com um gol de David Beckham, o que, na cabeça dos argentinos, ficava um enorme vexame.

Nas ruas, manifestações políticas e confrontos de torcidas eram inevitáveis. Ingleses e argentinos sairam mesmo na pancada em estações de trem e parques da cidade, dando trabalho para a até então, pacífica polícia japonesa, não acostumada com tamanha selvageria entre as torcidas dos clubes da J-League e até mesmo do estilo de vida japonês, mais sereno e compreensivo.

Os asiáticos não entendiam os cânticos latinos regidos por tambores e instrumentos de sopro e o som dos Stones no talo, vindo dos hotéis e casas alugadas por torcedores do Chelsea. Tudo parecia confuso, e era sinal de que algo de enormes proporções iria acontecer.

E chega, enfim, o dia da partida.  Mais de 3.000 policiais, dentro e fora do Estádio Internacional de Yokohama para garantir a segurança das 73.000 pessoas, divididas entre ingleses, argentinos e japoneses curiosos, que não aceitariam perder tal momento. Como não poderia ser diferente, milhares de nipônicos com câmeras fotográficas podiam ser vistas entre boquenses e blues.  O medo de um quebra-pau, pelo menos dentro do estádio, estava findado pela eficiência da Polícia. Cada um em seu lugar.

O Boca, que entrara em campo com a mesma formação padrão, de 4-3-1-2, baseada no toque rápido de bola e capitaneados por Riquelme, Mouche e Viatri,  e sentindo a ausência de Ledesma, expulso contra o Monterrey, tinha como preocupação anular as descidas de Drogba e, pasme, Fernando Torres, que, num devaneio de Roberto Di Matteo (sim, fora efetivado após a vitória contra o Bayern München na Final da UCL), ganhava a posição de Malouda, que se contundira na partida contra o Esperance.

Di Matteo retirava um meio-campista talentoso para atuar no tradicional 4-4-2 britânico. O que poderia ser algo suicida, para encarar um time rápido e de toques de bola precisos como o Boca. Segurar um 4-4-2 durante noventa minutos, era encarado pela imprensa esportiva uma temeridade. Até o antigo craque Gary Lineker, comentarista pela BBC de Londres, cornetava a teimosia de Di Matteo. Batia na tecla que deveria voltar a atuar com mais um homem de armação, rápido, para irritar Schiavi, que sempre cometia faltas.

Mas Di Matteo não cedeu a pressão, e o jogo começa. Dá a saída o Boca, trocando muitos passes na defesa, enquanto o Chelsea parava o jogo com algumas faltas. Terry se irritava. Gritava com sua equipe que parar o jogo resultaria em cartões desnecessários e que argentinos, que sempre são malandros, seriam mais ainda no jogo que marcara 30 anos de Malvinas/Falkland.

Não deu outra. Após entrada do brasileiro Ramires em Viatri, enquanto Rivero levava uma pernada de Raul Meirelles, o árbitro, o também português, Olegário Bequerenca, amarelava os dois jogadores do time inglês.

Escolha do árbitro, que por sinal, gerava polêmica antes da partida. O Boca não aceitava de jeito nenhum um árbitro europeu, e que falasse português, exatamente a língua falada no Brasil, maior rival futebolístico dos porteños, mas a FIFA foi implacável e Bequerenca fora mesmo o escolhido.

“La Concha de tu Madre, inglés puto”, gritava o técnico Julio Falcioni, ao jogador Terry, que mais uma vez era protagonista. Ao correr próximo do banco de reservas, passa a bola ao espanhol Fernando Torres. A bola vai para o espanhol, mas a perna de Viatri, outra vez golpeado, fica, e Bequerenca pára o jogo. Falta. O terceiro amarelo ao time inglês aparece.

Após os cartões, o Chelsea resolve jogar. O desenho tático do jogo, ocorre justamente pelas laterais. Um duelo Fernando Torres x Clemente Rodriguez se iniciava. Após cortar três descidas do espanhol, Clemente se descuida. Torres centra, Drogba chuta, e Orión espalma pra escanteio. Cospe em riste a trave. Não gostara nada disso. O 4-4-2 + Chuveirinho de Di Matteo começava a encaixar, mas nada de gol.

Entre estes chuveirinhos, o Boca  também arrisca: duas vezes de fora da área. Uma com o volante Erbes, que passa longe do gol de Cech, e a outra com Riquelme, que, esta sim, passa rente a trave, gerando um enorme “uuuuuuuh”. O desenho tático da partida lembra um quadro de M.C. Escher. Tudo sobe, tudo desce e nada se define. O primeiro tempo termina num pegado 0x0.

Nos vestiários, Di Matteo é categórico: manter o  4-4-2 e ir pra cima de Clemente Rodriguez, de Sosa e principalmente, de Schiavi, onde a chance de cavar um pênalti era alta. Afinal, se Bequerenca amarelara três atletas londrinos, também daria cartões para os boquenses. Esta é a lógica de um árbitro FIFA e equilibrado. Enquanto isso, Falcioni faz sua primeira substituição: sai Viatri, bastante esgotado pelas faltas e entra Cvitanich.

A Guerra das Malvinas/Falkland em solo nipônico em 2002. A cena se repetiu.

A Guerra das Malvinas/Falkland em solo nipônico em 2002. A cena se repetiu.

Começa o segundo tempo. Dá nova saída o Chelsea. E bastam dois minutos para o estopim Malvinas/Falkland explodir. Após uma falta sofrida em Lampard próxima a linha de fundo, o nigeriano Mikel não gosta nem um pouco, e dá uma cabeçada em Sosa, que revida. Não com violência, mas com palavras: “Negro puto ! Macaco ! Mira esta banana, puto”, apontando para seus genitais. E pronto: Mikel, além da cabeçada, dá uma joelhada na costela de Sosa, ao dar as costas pro meio-campista. Mikel é expulso na hora por Bequerenca, gerando êxtase por parte dos torcedores Bosteros.

O que Sosa não esperava é que o auxiliar ouvisse muito bem as suas palavras racistas ao nigeriano, que imediatamente chama Bequerenca de canto. O árbitro português, corre para a confusão e ergue mais uma vez o cartão vermelho, desta vez para Sosa. Falcioni fica louco. Do lado oposto da confusão, não ouvira nem entendera o que se passava.

Poeira abaixada, cada time com um homem a menos, começam a se estudar. E aos 11 minutos, o Boca parte com tudo para o ataque. E logo na primeira tabela rápida entre Riquelme e Cvitanich próximo a grande área, a bola sobra, espirrada para Mouche, pouco antes da marca do pênalti, que, mesmo marcado por Cahill,  bate forte no canto de Cech, que nada pode fazer. Boca, 1×0.

Os argentinos explodem nas arquibancadas. Alusão as Malvinas novamente aparecem em gritos, faixas e cânticos. Roberto Di Matteo não se desespera. Sabe, que apesar de ser italiano, assim como Margareth Thatcher, era preciso intervir com intensidade contra os argentinos. Sabia que sua loucura de não botar um substituto de ofício a Malouda poderia ser fatal, como estava sendo.

Mas Di Matteo confiava  em seu esquema tático. Seu 4-4-2, mesmo perdendo um homem de meio-campo, não falharia. Com o Boca sem um lateral, o Chelsea passa a atuar por aquele lado do campo e encurralar o Boca Juniors em seu campo defensivo. Ramires passa a ser a arma. Não demorou cinco minutos. Aos 16 do segundo tempo, Ramires recebe uma bola pelo meio. Riquelme tenta ganhar na raça, mas o brasileiro passa. Rivero e Erviti cercam, mas Ramires corre pela ponta, passa para Drogba que vai fazer o gol.

Só faltava ir pra cima de Schiavi, no centro da área, que num carrinho, derruba Drogba na meia-lua. Falta perigosíssima. Porém, pra desespero dos boquenses, Drogba é malandro. Rola sutilmente pra dentro da área e Bequerenca, sem ver o lance, marca pênalti. Seu auxiliar também não vira com exatidão aonde Schiavi derrubara o africano. Falcioni se desespera e invade o campo. Schiavi, como previsto por Di Matteo, leva amarelo.

Lampard, no mesmo lado do campo (lado esquerdo da TV) onde, na mesma Ásia, onde a Inglaterra eliminara a Argentina em 2002,  se lembra de seu rival de Manchester United no English Team e cobra o pênalti como David Beckham na Copa 2002: com uma porrada no meio do gol e empata a partida.

Agora, no Estádio de Yokohama, Boca Juniors 1, Chelsea 1. Orión, que já havia se consagrado nos penais, nada podia fazer. Festa britânica, e novas citações as Falkland no lado azul e branco da arquibancada, apesar do Chelsea atuar com a camisa branca.

Vinte minutos se passam, com certo ostracismo e algums substituições. Quase impecável na marcação de Riquelme com exceção do gol do Boca, o português Raul Meirelles é substituído. Entra outro espanhol: Juan Mata. No Boca Juniors, Falcioni tira Erviti e coloca Miño. Erviti, por sinal, havia falhado feio no arranque de Ramires no pênalti que originava o empate dos Blues.

36 pra 37 minutos do segundo tempo. Pro Boca Juniors, o esquema passaria a ser prender mais a bola, aguardando a prorrogação. Não queria esgotar a equipe. No Chelsea, Di Matteo se mantém convicto do que quer: 4-4-2 e o chuveirinho, como a Seleção Inglesa de 1990, do mesmo Gary Lineker, que torcia o nariz para o sistema ortodoxo, atuava.

Cole grudava em Cvitanich, e Terry, mesmo amarelado, não largava Riquelme. Avanços do Boca eram constantemente parados com certa truculência, mas sem faltas.

Quarenta minutos e o Boca quase passa a frente. Um escanteio, cobrado por Riquelme, bate em Bosingwa e engana Cech, que espalma no susto. Novo escanteio, e desta vez, Cech agarra a bola, quase na cabeça de Mouche. Sua reposição é precisa. Lampard domina a bola, sozinho, e vê Drogba e Torres, marcados por Schiavi e Clemente Rodriguez, que no segundo tempo, disse amém aos céus pelo Chelsea apostar mais no meio do que nas laterais. Estava morto de cansaço.

A ausência de Ledesma, bom de bola assim como o irmão consagrado no futebol italiano, era mais sentida do que imaginavam os argentinos, pois Lampard, com Riquelme marcado com excelência e sem outro meio-campista de qualidade pra lhe fazer frente, faz o que quer, e como se tocasse a bola com a mão, lança Drogba, que beneficiado pelo esgotamento de Rodriguez e confundindo a marcação, alterando de lado com Torres, quase sem ângulo, que bate com força.

Orión toca nela, mas não evita o gol do Chelsea. 2×1 para os ingleses, aos 41 min do segundo tempo. Schiavi parece não acreditar no que estava vendo. A Guerra das Malvinas, em 1982 com a Argentina destronada pelos britânicos, agora em 2012, nos 30 anos da mesma, era novamente destronada pelos britânicos e por um “macaquito”.

O Boca não desiste. Ainda tinha quatro minutos, mais três de acréscimo indicados por Bequerenca. E, como num lampejo, aos 44 do segundo tempo, Riquelme revive Maradona, recebe a bola no círculo central e dribla o time todo do Chelsea. Parecia o empate. Mas Cech tem mais sorte do que Shilton em 1986, e a bola de Román, sem goleiro, sem ninguém, bate caprichosamente na trave e rola pro lado de fora do gol. Bosingwa dá um chutão pra lateral.

Agora, quem apostava no chuveirinho, era exatamente o Boca. Acréscimos. Falcioni tira Schiavi e coloca Santiago Silva, o “El Tanque” pro desespero final. A bola alçada por Clemente Rodriguez, vai na cabeça de El Tanque. Cech, mais uma vez, agarra. Parecia o fim. Falcioni pede mais alguns minutos. Di Matteo pede o fim do jogo. Cech repõe, Torres prende a bola e sofre falta de Insaurralde na intermediária. Nada de chuveirinho. O Chelsea agora atuava, como o Boca: passes rápidos, do mesmo jeito que esperava que o tempo passasse.

E ele passou. Prrrrri !!  Bequerenca termina a partida. Boca Juniors 1×2 Chelsea. Festa do lado britânico, frustração do lado porteño. A Inglaterra vencia, mais uma vez, a Guerra das Malvinas/Falkland. Desta vez, na Decisão do Mundial de Clubes da FIFA. O Chelsea era recebido no Heathrow Airport de Londres, com milhares de torcedores pelas ruas inglesas, com gritos provocando os porteños, e principalmente o rival Arsenal, que não chegara a tal título.  O desfecho de uma guerra, passava a ser como a história sempre quis ver: decidida nas quatro linhas do Futebol.

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NOTA DO BLOG: Esta é uma obra de ficção, mas caso os quatro brasileiros saíssem da Libertadores da América, seria interessantíssimo vê-la virar realidade.

 

Até mais !

Luís Butti
Twitter: @luisbutti

 

 

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5 respostas para O jogo que eles queriam ver.

  1. jotinha disse:

    Meu querido…. Mais uma viagem de butti…

    o campeao eh o corinthians pow!

  2. Júnior disse:

    Por que “caso os quatro brasileiros saiam”?

    • luisbutti disse:

      Porque o foco do Blog é mais no Futebol Brasileiro, então eu trabalho com a hipótese de não ter brazuca jogando.

      Pro Blog, teoricamente, é melhor que um Brasileiro vença. E sinceramente, acho que o Boca já vai cair no Flu.

  3. Fábio Perazzo disse:

    Parabens pelo texto, Butti. É interessante imaginar os ingleses vibrando e sofrendo tanto por esse mundial de clubes, que eles chamam “carinhosamente” de Mickey Mouse Cup, e pior, encarando como uma replica da Guerra das Malvinas. A revanche aconteceu mesmo no México. Logo a nota da obra de ficção é redundante demais. :p Quanto aos palpites, tambem nao vejo o Chelsea ganhando a Champions, a menos que compre o juiz. Se eles não perderem no tempo normal, vão perder nos penaltis. É dito e feito! 🙂

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