Tabus, Maldições e Histórias. Até onde você suportaria ?

Hoje, contaremos uma história um pouquinho diferente do que fazemos aqui no Blog.

O ano era 1918. O país era os Estados Unidos da América, mais precisamente em Boston e o esporte era muito diferente do Futebol que a gente retrata no Blog EU, RADAMÉS Y PELÉ diariamente. Mas a história, de fato,  era muito parecida com várias que ilustram o nosso imaginário futebolístico.

O Boston Red Sox, uma das 3 maiores equipes do Baseball norte-americano, era mais uma vez Campeão do World Series da MLB em 1918, numa disputadíssima Final contra o Chicago Cubs. O astro do Boston Red Sox era Babe Ruth, mais conhecido pelos fãs do Baseball como Bambino. O Red Sox, para a alegria da nação vermelha de Boston, vencia a World Series (uma espécie de grande final, unindo todos os campeões de demais grupos e conferências).

Após o título, o Manager do Boston Red Sox, Harry Frazee,  venderia Babe Ruth ao arqui-mega-ultra rival, New York Yankees, para financiar a realização de um musical. Para muitos, a rivalidade Boston Red Sox x New York Yankees é a rivalidade mais mortal da história dos esportes coletivos, inigualável em qualquer outra modalidade. E a venda de Babe Ruth era mais do que um negócio, mas uma maldição longinqüa que estava por começar.

Não deu outra. Mal imaginavam que a campanha vitoriosa de 1918 do Boston Red Sox seria a última em longos oitenta e seis anos. Isso mesmo, 86 anos. Imagine o Flamengo, o São Paulo ou o Corinthians passar oitenta e seis anos sem vencer um torneio nacional. É mais ou menos isso que acontecia no Baseball. Um time Top 3 do país passar por um jejum deste porte.

E, na seca de oitenta e seis anos, o Boston Red Sox, pra piorar, via o New York Yankees (e outros clubes, consequentemente) dominar a MLB ano após ano, construirem hegemonias, equipes vitoriosas por N anos consecutivos e disparar no número de canecos em comparação ao Red Sox, que até então, possuía um número de canecos pau a pau com os rivais. Depois disto, o Red Sox chegava perto da taça, mas sempre esbarrava em alguma coisa.

Ou era azar, ou era erro bobo, ou era um time muito melhor na Final, ou era rebatedor ruim, ou era falta de precisão nos arremessos, ou era um “quase”, ou era infelicidade, ou, ou, ou, ou, ou. O fato é que foram oitenta e seis temporadas de “ous”, até 2004, quando o Boston Red Sox finalmente quebrou o Tabu de 86 anos.

Tabu, este que, além do folclore da Maldição do Bambino, era embalado por uma linda canção de Neil Diamond, que, durante o jejum, faria um show no Fenway Park (por sinal, o estádio esportivo mais antigo ainda em uso da MLB, e provavelmente do planeta, completa 100 anos agora em Abril): “Sweet Caroline”.  “Sweet Caroline” sempre dava o alento de que algo melhor estava para acontecer. O tabu iria acabar. A Maldição do Bambino finalmente seria enterrada.

E foi do jeito mais traumático da história. Na disputa da ALCS (Liga Americana, uma espécie de semi-final) de 2004, o Boston Red Sox virou de maneira improvável uma disputa já perdida (mais uma vez) para o New York Yankees. Estava 0x3. Viraram para 4×3. Nunca na história deste esporte (Luiz Inácio mode on), uma equipe virara uma decisão de 0x3 para 4×3. E o Boston Red Sox virou.

Era a passagem para a Final do World Series, contra o St. Louis Cardinals. Depois deste milagre, não havia mais “ou” ou dúvida que impedisse de se quebrar a maldição. O Boston Red Sox, era, após 86 anos, novamente Campeão da World Series, para a alegria de uma das nações mais fanáticas dos esportes.

O Boston Red Sox, após 86 anos, Campeão da World Series no Baseball. Precisava demorar tanto ?

O Boston Red Sox, após 86 anos, Campeão da World Series no Baseball. Precisava demorar tanto ?

E voltemos para o nosso Futebol tupiniquim, numa Ponte Aérea Boston-Guarulhos, onde muito perto dali do aeroporto, um outro clube bastante popular, localizado na Marginal Tietê, bem perto do aeroporto, entre São Paulo e Guarulhos, encararia um jejum (bem menor em sua duração, é verdade) bastante emocional e simbólico como o do Boston Red Sox: o Corinthians passaria 23 anos sem conquistar um único Campeonato Paulista. De 1954 a 1977.

Campeonato Paulista, que, é bom frisar, na época, diferente dos dias atuais, era extremamente valioso, assim como acontecia com os demais estaduais de outros locais. Talvez, mais até do que os próprios torneios regionais e os nacionais, que só foram engrenar de verdade em comparação aos estaduais em 1971, quando foi oficializado Campeonato Brasileiro pela CBF (até então, CBD).

Os estaduais eram tão fortes que haviam pequenos torneios de seleções estaduais, onde atuar por ela era um mérito valiosíssimo. A propósito, um jogo entre Seleção Paulista e Seleção Carioca inaugurou o Maracanã, mas isso é história para outro post. Daí vocês percebam como era duro para um time gigante ficar sem um Estadual.

Após a conquista do IV Centenário da Cidade de São Paulo de 1954, contra o Palmeiras, numa Final, que só foi acontecer no comecinho de 1955, o Corinthians, dois anos depois, em 1957, se deparou com o surgimento de um de seus maiores algozes: nada mais, nada menos que Pelé.

E, assim como o Boston Red Sox, que viu o New York Yankees dominar, o Corinthians teve, não só que aguentar a seca, mas teve que aturar o auge do Santos de Pelé nos anos 50, 60 e começo dos 70.

Paralelamente, também via o Palmeiras, de Ademir da Guia (por sinal, citado neste blog nesta semana) e o São Paulo de Leônidas da Silva e Roberto Dias levantarem o caneco. E, pasme, até a Portuguesa de Desportos, que possui apenas três títulos, era Campeã Paulista justamente neste período, em 1973, com Enéas e Basílio.

Isso mesmo, Basílio. O próprio homem, posteriormente, chamado de Pé-de-Anjo, nomenclatura errôneamente atribuída a Marcelinho Carioca, foi o encarregado de por fim no sofrimento da Fiel Torcida no Paulistão em 1977. O adversário era a Ponte Preta, clube que o Corinthians havia enfrentado outras quatro vezes antes da Final nas outras fases do torneio e perdido todas. Apesar de ser um clube do interior, tinha um timaço e era a favorita.

Os três jogos aconteceram no Morumbi. O primeiro, vencido pelo Corinthians por 2×0. O segundo, no maior público da história do estádio com 146.082 pessoas no Morumbi, só para aumentar a dramaticidade da coisa, o Corinthians perde o jogo de virada por 2×1 e força uma terceira partida. Se o Corinthians vencesse naquela tarde, acabava o Campeonato. Mas não venceu e forçou um terceiro e derradeiro jogo.

No terceiro jogo, dia 13 de Outubro de 1977, após uma falta cobrada por Zé Maria aos 39 minutos do segundo tempo, quando o jogo se encaminhava para o seu final, um bate-e-rebate na área da Ponte Preta, e a bola sobra para Basílio empurrar para as redes.

Gol !  Gol do Povo ! Uma história conta, que um narrador de uma Rádio do Interior, efusivo com tal acontecimento, gritara: “Goooooooooooool do Brasil !!”. Afinal, o Brasil inteiro estava comemorando tal quebra do tabu.

Basílio faz o gol salvador, o Corinthians é novamente Campeão e quebra o Tabu. Xô, Sapo !

Basílio faz o gol salvador, o Corinthians é novamente Campeão e quebra o Tabu. Xô, Sapo !

O Corinthians era novamente Campeão Paulista. Havia quem não acreditasse no que estava acontecendo. Há gente que não acredita até hoje que tal bola entrou e o calvário acabou. O fato é que, assim como a Maldição de Bambino em Boston, no Parque São Jorge, também havia algo parecido.

Não se sabe como nem quem. O fato é que os pais de santo que trabalhavam para o saudoso Vicente Matheus, descobriram pouco antes do veredito daquele Paulistão 1977 que havia um sapo enterrado atrás de uma das traves do Parque São Jorge, urubuzando o Mosqueteiro.

Vicente Matheus, então tratou de, numa noite chuvosa, cavocar o tal gramado. Marlene Matheus, sua esposa não poderia acreditar no que estava vendo: Matheus achara uma carcaça de sapo (ou o que sobrou do pobre batráquio), com amarrilhos e demais adereços para trabalhos espirituais.  O sapo foi encontrado, e, maldição ou não, o Tabu estava quebrado. O Corinthians era Campeão novamente.

Muitas outras versões tanto no Red Sox como no Corinthians são evocadas, mas o que vale é Babe Ruth e o Sapo que assombravam as massas de Boston e Sampa. O resto é história. Histórias, que, por sinal, já viraram livros, filmes, músicas, estudos escolares, peças de teatro, folclore, etc, etc etc e bota etcetera nisso.

O legado de Boston Red Sox e de Corinthians são imensos. Hoje, são clubes milionários e vitoriosíssimos, com cifras astronômicas, com olhos no futuro, atletas ícones e uma torcida X vezes maior do que antes do Tabu. Sim, elas se multiplicaram baseadas na dor e no sofrimento, mostrando que o Esporte pode sim, ser incrível no que tange a mobilização social.

Para o Boston Red Sox, destaca-se o filme “Amor em Jogo” (Fever Pitch). Para o Corinthians, destaca-se o “23 Anos em 7 Segundos”. Ambos contam as histórias dos tabus de forma divertida e bastante cinematográficas. Tão longes um do outro e tão perto entre si pelo sofrimento de suas torcidas.

E a pergunta que se faz nos dias de hoje: muito se teme que um novo Tabu de décadas abrace um gigante. E até onde você suportaria ? Acha vinte, trinta, quarenta anos muita coisa ? Imagine quase noventa, como aconteceu no Baseball.

Tabus foram feitos para serem quebrados, e histórias, para serem escritas. Estas são apenas duas, mas certamente as mais sofridas dentro dos esportes. Pelo menos, entre as que eu conheço.

 

NOTA DO BLOG: Há quem diga que o Tabu do Chicago Cubs é ainda maior do que o do Boston Red Sox. Porém, o Chicago Cubs de hoje não é originalmente o mesmo clube da época do seu último campeonato, portanto, não vale para níveis sociais e populares, e para a nossa comparação.

Até mais !

Luís Butti
Twitter: @luisbutti

Anúncios
Esse post foi publicado em Uncategorized e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Tabus, Maldições e Histórias. Até onde você suportaria ?

  1. Detalhe que os Red Sox só chegaram na WS de 2004, depois de conseguir a maior virada da história do Baseball. Perdia a final de conferência pros Yankees de 3 X 0 e buscou a virada.

  2. walter disse:

    olha amigo que bobagem vc escreveu nesse texto em. dizer que o red sox é um dos 3 grandes do baiseball é algo verdadeiro… mas dizer que o Corinthians é um dos top 3 do futebol brasileiro é uma piada né, espero que vc tenha colocado esse top 3 no âmbito de torcidas, porque em títulos e historicamente santos e palmeiras são muito maiores que tal time.

    • luisbutti disse:

      Corinthians só perde em títulos ganhos no campo para Flamengo e São Paulo. No resto, é o maior vencedor.

      É complicado a gente considerar no mesmo patamar Taça Brasil e Robertão, que são sim, valiosos, não no mesmo nível de Brasileirão e Copa do Brasil.

      E sim, quando falo em maior, não se tange apenas em títulos, mas toda a atmosfera cultural e popular que abordamos no Blog.

      Se títulos forem o único patamar, o Independiente é um dos 5 maiores clubes do mundo. E se ver a realidade, não é nem Top 5 na Argentina.

      O Futebol abrange MUITO mais do que canecos. Cabe a nós, torcedores, fazer com que o caldo cultural do nosso Futebol valha cada vez mais.

      Abração !

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s