Futebol da Cor da Noite

Amigos do blog “EU, RADAMÉS Y PELÉ”, conforme anunciei durante a semana, teríamos alguns amigos colaboradores. Hoje, eu saio de cena e dou espaço ao meu amigo Prof. Victor Raphael.

Grande abraço !
Luís Butti

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Futebol da Cor da Noite

A paixão é a mesma, mas a forma de manifestação da mesma se difere. É assim que encaro a música e o futebol, como filhos de uma mesma mãe, mas com personalidades extremamente dissociadas. A convite do grande Luis Butti, me apresento a este humilde e portentoso (ao mesmo tempo)  blog.

Me chamo Victor Raphael, e, provocativamente falando, tenho orgulho de pertencer ao clã de grandes personalidades de nosso país como Chico Buarque e Cartola (ambos gostam de samba, são mangueirenses e torcedores do Fluminense, como eu) e virei aqui eventualmente comentar algumas coisas sobre futebol e musica, mas muito mais sobre o que permeiam esses dois universos, e de como eles encaram as discussões da sociedade. Parece sociológico demais. E é. Afinal de contas quem disse que os destinos de uma nação não se refletem num jogo de futebol, principalmente num pais que teve sua seleção usada para legitimar um regime ditatorial? (1970, assunto pra outro dia)

O assunto de hoje é recorrente no futebol de ontem, de hoje e de amanhã. E na música dos mesmos tempos. O racismo, por incrível que pareça está nas entranhas da gênese do futebol brasileiro. E embora o que esteja em voga hoje seja o que acontece na Europa, temos que resolver nossos problemas domésticos primeiro:

Se voltarmos ao inicio do século XX, no recém-nascido Football, o cenário é bem diferente do que vemos hoje em dia: esqueça os campos de terra, os campeonatos nas ruas, o golzinho, ou qualquer coisa que seja popular. O futebol era esporte da elite. Diria mais, sofria repulsa até do grande publico, que considerava o esporte brasileiro (ou pelo menos carioca, já que, por ser capital, e por haver poucos meios de comunicação na época, a voz do Rio era, sem trocadilhos, a Voz do Brasil) o Remo, a Regata, o Turfe e qualquer outra coisa que não fossem aqueles 22 homens trajando social e chuteiras de cravo correndo atrás de uma bola em gramado verde.

Partindo do nosso pressuposto pós-escravidão essencialmente racial de 300 anos, obviamente o distanciamento racial não foi abolido junto com a escravidão, e dificilmente a harmonia étnica se refletia em algum meandro do convívio social da nação… imagine então no futebol?  Imagine por exemplo, o elitista, aristocrático, almofadinha Fluminense Football Club, o clube mais antigo do Rio, patriarca do esporte bretão carioca, primeiro campeão e tudo aquilo com um negro em suas fileiras? Inadmissivel pra época. E dá-lhe pó-de-arroz no Carlos Alberto, contratado em 1914… e a torcida do América, vendo que o cidadão suara e a sua “branquice” lhe escorria pelo rosto (os jogadores da época usavam manga comprida, além de calças e meiões que lhe cobriam as pernas por completo) eternizou o grito de “Pó-de-Arroz”, eternizado pela torcida em contrapartida, anos depois.

Duvido também que nesta época, o torcedor do queridinho do Remo, o Flamengo, quando da fundação do seu time de futebol,  aceitaria ter como mascote um Urubu, haja vista que comungava da mesma conduta que todos os times do Rio: não tolerava negros defendendo suas cores. Parece até irônico.

Mais irônico seria um clube com origem Portuguesa, algozes da escravidão portanto, abrir, ou melhor, escancarar as suas portas para negros e pessoas humildes poderem praticar o esporte da high society e ser campeão com esta “massa”. Seria do Club de Regatas Vasco da Gama a abolição do impedimento dos negros no futebol, e por consequência, da sua grande popularização, embora todos os outros torcedores dos clubes do Rio, que não o Vasco, torçam a cara para este fato e embora o Bangu tenha sido o primeiro clube a aceitar negros ostentando sua camisa. E mais interessante, os “arianos” do Rio tentaram por diversas vezes naquela longínqua década de 20 abolir o Vasco da Gama do futebol.


Andando no tempo, e fazendo pequenas escalas… Será que o Barbosa, caso fosse branco, teria sido execrado como foi na Copa de 50? Quem condena o goleiro de 82, por exemplo? São perguntas que não teremos como responder, mas podemos nos debruçar sobre elas.

Hoje, num restaurante de alta classe dos grandes centros, com certeza o negro que lá comparecer logo será associado a um pagodeiro ou a um jogador de futebol, mesmo que seja médico, advogado, engenheiro… é a forma velada de “preconceituar” “enlatar” e “padronizar” indivíduos. Hoje o racismo está no futebol desde as bananas jogadas em campo, às ofensas diretas entre jogadores, que é tema delicado, já que sabemos bem sobre o não-comparecimento de santos dentro de campo (até Kaká fala palavrão, que horror – seguido de risos)e que as ofensas fazem parte da estratégia de desestebilizar o adversário, mesmo que pra mim, isso não abone desvios de conduta quanto ao exemplo que pessoas publicas como jogadores de futebol devem dar nos tempos modernos.

Se não aguenta, seja outra coisa na vida, onde seus atos não reflitam, por exemplo, em crianças que buscam seus ídolos para seguir e imitar (Neymar não te diz nada com seu moicano?) e acabam, por vezes, presenciando atitudes deploráveis dos mesmos.

Pra encerrar o post, que se não esclareceu, pôs aquele ponto de interrogação, o que não deixa de ser bom, segue a musica Dia de Graça, de Candeia, para reflexão sobre nossos tempos atuais, na bola e na mente

OBS: Avisem o dono do blog que é necessário descorinthianizar o espaço! Grato, hahahahahaha

Victor Raphael

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Nota do Blog: do contrário que bradam Bangu e Vasco da Gama no Rio de Janeiro, aqui, pros lados do interior de São Paulo, historiadores do futebol campineiro  divergem sobre o tema. Alguns chegam a colocar não Vasco ou Bangu, mas sim, a Associação Atlética Ponte Preta, como a verdadeira pioneira de negros no futebol oficial brasileiro. Cabe discussão e pesquisa.

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